OS OBJETOS









Cambaleando, arrastando os chinelos Havaiana em pés trocados. Tateado os móveis no escuro, e enfiando os dedos nos pequenos buracos da parede, Sr. Phodo caminhou até a cozinha. Sem acender as luzes, pegou no alto do armário o pequeno frasco de Novalgina. Para o Sr. Phodo tudo era assim muito simples e elegante. Acreditava poder resolver todos os problemas de sua vida  ingerindo vinte gotas de Dipirona, diluídas em um pouquinho de água tépida com sal-de-fruta Eno.

Permaneceu ali em silêncio por alguns instantes, atordoado, sentado junto à mesa, com uma das mãos sob o queixo, apoiando a cabeça, que doía como um enxame de abelhas africanas. Decididamente, seus escritos não eram nenhum tratado de filosofia, a ponto de não poder inserir ali tudo o que bem entendesse

No intervalo entre o barulho de um veículo e outro, ouvia vozes distorcidas de pessoas discutindo na casa ao lado, onde morava uma família de negrinhos. Por vezes, uma buzina mais alta fazia com que as orelhas de um gato magro, deitado na mureta da varanda, se movessem no ar como periscópios, procurando por algo invisível e ameaçador. Preciso me livrar dessas bugigangas - dizia para si mesmo em voz baixa, coçando um pouco abaixo do abdome.

Retornando absorto à escuridão metafisica de seu quarto, ouvia agora gritos histéricos de adolescentes que passavam na rua, como um bando de chimpanzés amedrontados.

Enfiada em sua camisola branca, a Sra. Strik Nina dormia um sono profundo, por vezes acertando o Sr. Phodo com os movimentos espasmódicos de suas pernas. No quarto ao lado, um coral de respirações ofegantes fazia contraponto com o tic-tac do relógio e o barulho do motor da geladeira, que cessava. Lá fora, a centenas, anjos iluminados desciam do Céu, enquanto cachorros quentes latiam, afugentando para longe andarilhos noturnos.

Um pouco mais distante, o ronco do motor de um velho Passat sujo de lama, trocando as marchas, dobrava as esquinas, tornando-se cada vez mais baixo, até diluir-se na imaterialidade de um pré-sonho, atropelando personagens oníricos...

Estou na sacada da casa que nunca poderá ser minha, soltando bolhas de sabão Corel Draw. A primeira que fiz saiu meio esverdeada e de tamanho médio. Parou por alguns instantes à altura da antena de FM do vizinho dos fundos, e depois subiu lentamente, impulsionada por uma brisa suave, passando rente a um telhado, como se fosse um UFO carregado de criaturinhas metálicas. O vizinho dos fundos tem um Ford Pampa cinza e o cavanhaque falhado. Sempre que o observo, tenho a impressão de que está indo pescar, apesar da sua cara mal humorada. Agora uma bolha dourada passa rente à tampa da caixa d’água e faz uma manobra inesperada, voltando em minha direção. Assustado, desço correndo as escadas e passo pela sala.

Passando pela sala, vejo, um tanto quanto desfocada, a imagem do pequeno Ted  deitado de bruços no tapete, como uma lagartixa preta, lendo um gibi do Tio Patinhas dos anos 70.

Entro no banheiro e continuo ouvindo o ronco do Passat no celular.

Aperto o tubo de pasta de dente contra o peito, olhando-me no espelho em que meu filho mais velho remove sua maquiagem cor de fezes, e vejo um Outro Mundo Verde. Penso: “Não passo mesmo de um mísero vendedor de remédio para baratas”.

A realidade imaginária escorre em direção ao ralo. Não suporto mais ver meu vizinho feliz da vida, dando lustro em seu Fiat Uno Eletronic azul turquesa, enquanto um casal de pardais muito engraçado, desafiando a fúria patética da cachorrinha Mira, toma banho na areia do jardim, na sombra das margaridas, que não param de se movimentar ao sabor do vento, como se houvesse alguma música.