O PENSAMENTO








SEXY SUICIDE


Agora eu era um monte de eus perdidos no espaço, inclusive um de terno, que em dias de chuva limpava as botas e lia a Bíblia. E outro de short, que, em dias de sol, lavava as rodas de magnésio, mascando chiclete, observando absorto a cara de sapo refletida na calota do velho Mercury branco. Pensava na vida. Todos eram malditos. Apenas UM o amava de verdade. Mordendo as mãos, lambendo os dedos, batendo os joelhos, depositando flores mortas em frente ao espelho, mesmo que não houvesse mais tempo, nem dinheiro para lhe oferecer perfumes e presentes.


CROSS-CRY, TELEPHONE LINE


Quando o telefone tocou, alguém, do outro lado da linha, com voz fininha e irritada perguntou:


Com quem você quer falar?

Eu disse: com você mesmo.

Ela então respondeu:
Ah, não enche o saco; vai se foder!

Eu insisti:
Não, é com você mesmo.

Ela completou:
Então fala, desembucha. . .


Fiz uma breve pausa, hesitando se deveria realmente lhe falar àquele horário, quando o som de uma buzina a ar soou mais alto na rua, impulsionando meu braço, que automaticamente desligou o telefone, colocando-o lentamente sobre o gancho.


Já não sabia mais se as faxineiras eram formigas vermelhas ou se eram ETs em forma de formigas vermelhas com cara de faxineiras.


Estou me transformando num Homem de Neandhertal, com cabelos brancos e quebradiços, apertando o nó da gravata, abastecendo sempre no mesmo posto da Shell, esperando a StrikiZinha em frente ao portão do cemitério.


Give-me a poison - Vírus, drogas, putas e doenças mentais, tanta gente falhando, que eu nem consigo dormir direito, e faxineiras como formigas vermelhas atrás da porta do banheiro tocando endemoniadamente guitarras elétricas, improvisadas com elásticos do escritório em suas vassouras de bruxa.